SEIS CAMISAS PARA PASSAR

Ela o conhecia há alguns anos, falavam-se por telefone sem nunca terem se visto. Eram momentos descontraídos onde cada um contava os seus problemas, sonhos e desilusões amorosas; trocando conselhos e o apoio tão necessário entre amigos.Depois perderam o contato, ela porque perdeu mesmo o seu telefone, ele porque achou que o silêncio dela configurava um compromisso maior, talvez um casamento.

Ele a reencontrou dois anos após, solteríssima e ainda enrolada com os seus problemas,sonhos e desilusões amorosas. Voltaram a trocar conselhos e o apoio tão necessário entre amigos. Mas desta vez resolveram se assumir fisicamente através de um encontro num parque da cidade onde moravam. Depois de um troca insinuante de olhares, houve beijos e abraços. Houve também a proposta de um encontro mais "caliente "no próximo final de semana.

Ela encantou-se , quase se apaixonou por aquele homem tão atencioso, tão amigo; com uma risada muito simpática,com uma áurea de bondade flutuando sobre os seus cabelos grisalhos.Ela criou coragem e perguntou-lhe quais eram as reais intenções dele para com ela, no amigo foi sincero e confessou que só queria a levar para cama, que não tinha intenções de ter um envolvimento amoroso com ela, ela então resolveu partir para aquela aventura de amar sem amor, a sua intenção era descobrir como se relacionar com um homem bem de perto sem sofrer.

Ele a cobriu de beijos, abraços e carícias, dizendo várias vezes que era muito bom ficar assim perto ela, recebendo a sua atenção e compreensão, gozou algumas vezes no corpo daquela amiga tão gentil que se entregava totalmente ao sabor da sua presença tão doce e tão máscula ao mesmo tempo. Houve uma conversa agradável, brindes e até um piquenique na cama, pareciam duas crianças brincando um com o outro de gente grande.

Ela ligou para ele no outro dia, eram um domingo chuvoso, às 10 horas da manhã, pensou que aquele carinho todo que ele lhe dedicava no dia anterior estaria presente na sua voz, nas suas palavras. Mas não! O que ela recebeu foi apenas uma voz educada, ainda simpática, mas um tanto vazia de emoção, o menino brincalhão que ele fora antes na cama com ela, parecia já ter crescido, o agora ele estava ali, só falando o mínimo necessário para manter um diálogo razoável entre os dois, depois de no máximo 10 minutos ele falou que ligaria de noite, que agora precisava passar as suas camisas.

Eles nunca mais se falaram ou se viram, ele não ligou mais, nem ela, descobriram na prática que onde entra o sexo por um porta, a amizade sai pela outra., descobriram que por um momento de prazer pode se destruir aquilo que se levou anos para construir, foi por carência ou solidão que buscaram, quem sabe... o ser humano é tão complexo, só o que se pode saber mesmo é que ele e tinha seis camisas para passar...

Aldina Ferraz Santos

 

© Geraldo de Azevedo 2004

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