O RÁDIO DA VIZINHA

Acordei no meio da noite com aquela música do Roberto Carlos tocando ( " ...eu te darei o céu meu bem e o meu amor também..." ), mas tudo o que eu queria era silêncio para poder voltar a dormir, nada de céu, nem mesmo de amor, só o silêncio poderia me dar o que eu mais queria naquele instante:cair no braços de Morfeu...No entanto, as músicas continuavam a tocar sem parar para o meu desassossego, e eu continuava a me virar na cama sem parar...Ficava planejando o diálogo que teria com a vizinha no outro dia:
- Lindas as músicas que tocavam durante esta madrugada. Em qual estação de rádio estavas sintonizada?- Quem sabe assim...  com esta pergunta tão inocente, ela se dê conta que me fez perder o sono por conta do seu gosto musical que, felizmente é igualzinho ao meu....ainda bem... preciso reconhecer...que ela sabe apreciar boa música...mas será que não dava para apreciar estas  boas músicas em uma hora mais propícia?!...

A noite impiedosa girava os ponteiros do relógio sem se preocupar com a minha aflição...e nada da vizinha apagar o seu rádio. Será que ela havia adormecido no meu lugar? Aquelas músicas...tão estranho... pareciam tocar dentro da minha cabeça...todas muito lindas, mas por que nem elas nem a vizinha tinham pena de mim, da minha noite tão mal dormida?!...Logo os passarinhos viriam juntar o seu canto àqueles cantores insistentes do rádio e, o meu sono fugiria completamente de mim...Depois o sol acordaria as pessoas na rua, as pessoas dentro de casa, que inferno seria levantar tendo tanto sono assim para dormir. Meu Deus! Corta a luz da cidade, faz alguma coisa para proteger o meu sono, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eu só quero dormir, será que é pedir muito?! será que eu não mereço isto?!polícia nem pensar em chamar...a música...é tão baixinha...e ela ...uma boa vizinha...alcança doces pela cerca...tão simpática...não...gritar não!...bater na porta dela também não...

Levantei! Fui ao banheiro sonolenta...tomei água e já que mais nada podia fazer para me livrar do sono, da vizinha e das suas músicas intermináveis, voltei para a cama, mais desperta do que nunca...muito mais desperta...tão desperta que, finalmente, consegui me dar conta de que aquela música que eu escutava há horas, estava mesmo muito perto, muito mais perto do que imaginava, estava do meu lado, no meu próprio rádio !!!...Agora sim, poderia adormecer abraçada com o tão desejado e esperado silêncio...não sabia se ficava braba ou ria de mim mesma... pelas horas que passei em claro botando na vizinha uma culpa que era só minha. Aprendi mais uma lição: Nunca devemos procurar culpados fora de nós, sem primeiro examinar, incessantemente, as nossas atitudes...

Aldina Ferraz Santos

 

© Geraldo de Azevedo 2004

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