"O que os olhos não vêem, o coração não sente..."

 O ditado acima se aplica ao comportamento de negação, onde decidimos que vamos ignorar aquilo que não conhecemos mas que pode afetar nosso ambiente. 
Ao analisarmos a segurança de sistemas de informação de uma organização, devemos ter bastante clara a noção de abrangência da segurança, buscando entender, da melhor forma possível, todos os aspectos de segurança envolvidos. Estaremos nos enganando se colocarmos em produção um mecanismo com o qual estamos confortáveis e considerarmos que o trabalho está concluído. Da mesma forma como em diversas outras áreas de atuação, o que nós não sabemos pode e quase certamente irá nos afetar.

Nenhum exemplo melhor para demonstrar isso do que o já conhecido firewall (outros mecanismos de segurança também possuem limitações, naturalmente). A maioria dos profissionais de segurança já está familiarizada com o conceito de firewall, um mecanismo de controle de acesso entre redes, que permite a passagem de tráfego autorizado ao mesmo tempo em que bloqueia o tráfego não autorizado. Firewalls podem ser classificados como baseados em filtros de pacotes ou baseados em "gateways de aplicação". Ambos os tipos tem limitações que podem afetar a segurança de uma organização.

Um firewall baseado em filtragem de pacotes TCP/IP tem uma visão muito limitada do que realmente acontece na rede. Diversos tipos de ataques, como aqueles baseados em CGIs com problemas em servidores Web, são virtualmente impossíveis de serem detectados com um firewall baseado em filtro de pacotes. Isto ocorre por, no nível de abstração de "pacotes", o ataque tem o mesmo tipo de pacotes, as mesmas características, que o tráfego "normal" de Web.

Já um firewall de aplicação tem um conhecimento maior sobre a aplicação, podendo proteger a organização contra ataques como os listados acima. No entanto, os firewalls de aplicação tem conhecimento de poucos tipos de aplicação, geralmente HTTP (Web), SMTP (envio e recebimento de correio eletrônico) e FTP. Alguns firewalls suportam protocolos adicionais, como SMB (compartilhamento de rede Microsoft) ou SQLnet, mas o conjunto é geralmente limitado. Para protocolos adicionais, utilizam-se "proxies" que são pouco diferentes de filtros de pacotes. A limitação do produto, então, está associada ao usuário pensar que o seu firewall de aplicação está protegendo contra ataques num nível superior ao que o firewall está efetivamente analisando o tráfego de rede.

Ao mesmo tempo em que os firewalls possuem limitações como as listadas acima, muitas organizações assumem uma posição confortável com relação à segurança baseadas apenas na existência de um firewall na organização. Embora pensem que estão protegidas contra ataques via rede, estão vulneráveis a ataques que seus firewalls não podem, por questão do próprio design do produto, detectar.

Ora, se todos os tipos de firewalls possuem limitações, o que deve ser feito para utilizar firewalls de forma correta na segurança da organização?

Devemos entender as limitações dos produtos que utilizamos e construirmos nossa infra-estrutura de segurança de forma a cobrir estas deficiências. Se os firewalls não captam ataques ligados à aplicação, devemos então dar uma atenção especial à segurança da aplicação e do sistema onde ela é executada. Se desejamos uma análise de segurança do tráfego de uma aplicação maior que o firewall pode fazer, podemos utilizar componentes dedicados de forma conjunta com o firewall. As opções são várias...

O essencial é saber reconhecer as limitações das ferramentas disponíveis, de forma a não sermos afetados por algo que os olhos não viram, mas o coração sentiu.

 

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