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O velho auditor |
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Certa
vez, quando era ainda um jovem sonhador, recém saído dos
bancos escolares com o diploma de bacharel em contabilidade, fui escalado
para fazer uma auditoria em uma funerária.
Parece
brincadeira de principiante, acho, até, que foi uma gozação
do meu chefe imediato.
Como
era um novato no emprego, não questionei nada, preparei meus
papéis de trabalho com esmero e fui à luta.
Existia de fato, uma denúncia grave contra a tal funerária, examinei detalhadamente o processo de licitação, concorreram com ela outras quatro empresas do mesmo ramo. Tudo
levava a crer que os procedimentos tomados estavam corretos, realmente
ela foi a empresa que apresentou o menor preço.
É importante lembrar que no serviço público o menor preço é o primeiro indicativo para a seleção dos prestadores de serviço. Raramente
somos surpreendidos com processos em que a empresa vencedora não
foi a que apresentou o menor preço.
E,
justamente o preço é que era o calcanhar de Aquiles, a
tal funerária havia vencido o processo seletivo com os preços
dos seus serviços bem abaixo dos concorrentes.
O serviço compreendia em fazer o traslado dos corpos dos servidores da prefeitura que morria em acidente de trabalho, até o cemitério central do povoado, fornecer o caixão e ainda, as vestes do defunto. Tudo
era perfeito, nenhum parente das vítimas, até então,
havia reclamado dos serviços prestados, mas a suspeita persistia
entre os funcionários.
Os
concorrentes diziam ser improvável prestar aquele serviço
de acordo com os preços praticados. Já que a documentação
estava correta, fui obrigado a fazer um outro tipo de investigação.
Passei
a freqüentar todos os funerais dos servidores daquela Prefeitura,
confesso que em alguns casos fui obrigado a fazer cara de choro, pois
era impossível, para mim, permanecer nos velórios com
cara de fiscal da Receita Federal.
Era
preciso fazer de conta que tudo era normal, só assim eu poderia
descobrir alguma falha no processo, já que as evidências
de fraude eram fortes.
Depois
de vários meses sem resultado positivo resolvi seguir os passos
dos funcionários da funerária.
Desse
modo, assim que morreu mais um servidor da prefeitura, tratei logo das
providências inerentes ao caso.
Liguei
para a funerária comunicando o fato, solicitei que fossem fazer
a transferência do corpo, bem como: providenciassem as vestes
e o caixão.
Acompanhei
tudo passoa passo até o momento de descer o caixão. Pensei
comigo: um enterro exemplar. Não percebi nada.
Como nem tudo é perfeito, um dia foi preciso desenterrar o ex-servidor de nome Zé Pretinho, cidadão que havia morrido meses antes. A
exumação se fez necessária graças a uma
senhora que dera à luz a um menino e atribuía àquele
funcionário a paternidade do seu filho.
O
caso espalhou pela cidade, a discussão virou assunto na boca
do povo.
Pensaram
até em fazer um plebiscito: sim ou não, para saber se
desenterravam o cidadão. Mas essa idéia não vingou.
Os
advogados da funerária eram contra a exumação,
mas o menino já ia fazer um mês de vida e nada de ter a
quem chamar de papai.
Diante
de tantas pendengas, finalmente o corpo foi "ressuscitado".
Essa foi a minha salvação, porque foi aí que
pude tirar minhas conclusões e, finalmente, dar o meu parecer
quando à lisura do processo de licitação. O tal Zé Pretinho havia sido enterrado nu! Nenhuma
roupa foi vista dentro da cova. As mulheres que estavam por perto ficaram
encantadas.
O
cidadão era um privilegiado pela própria natureza, seu
órgão genital estava intacto e em posição
de sentido, muito embora o restante do corpo estivesse comido pelos
vermes. Esse fato prejudicou um pouco a minha observação,
pois as mulheres queriam, porque queriam, conferir de perto o tal fenômeno
inusitado. O ti-ti-ti foi geral e extenso.
A verdade era que o coveiro estava a serviço da funerária.
Depois
que as pessoas saíam, ele desenterrava os defuntos para tirar-lhes
as roupas e o caixão.
Assim,
a empresa só tinha despesa com o translado do corpo. Eis que,
inusitadamente, se esclarecera o caso...
Hoje o meu diploma está um tanto desgastado pelo próprio tempo, mas com certeza esse fato deveria ser contabilizado nos anais dos Conselhos de Contabilidade para servir de exemplo aos novos auditores, já que não é todo dia que um defunto é desenterrado desnudo e com os "documentos" em perfeita ordem |
| Pedro cardoso é cronista - Texto Publicado com autorização de autor |
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