MEU AMIGO ERA UM CARA BONITO

 

Nunca concordei com essa história de que a beleza é fundamental, mesmo porque sempre fui feio e morei longe. Mas tem gente que acredita nessa inverdade como se ela fosse uma realidade. Algumas pessoas passam a maior parte do seu tempo disponível olhando-se no espelho. O pior é que nem sempre enxergam o que estão vendo.

Na juventude eu tinha um amigo que se destacava porque era forte e
formoso. Sua beleza chamava a atenção de todos, era realmente um "cara" bonito. As meninas não desgrudavam os olhos dos seus olhos azuis e nem os homens diziam que ele era veado ou coisa parecida. Só que nenhuma menina conseguia namorá-lo por muito tempo. Cada dia ele estava com uma garota diferente, cada qual mais bonita. Ninguém entendia nada. 

Os anos foram passando e ele permanecia solteiro. Os amigos foram
casando, alguns já estavam com a segunda mulher e ele, nada. As meninas diziam que a conversa dele era muito chata, que não conseguia formular uma idéia que pudesse ser discutida entre duas pessoas normais. Falavam até que ele não conseguia contar até dez.

Na escola ele nunca foi um bom aluno, chegava sempre atrasado e tirava notas ruins. O negócio dele era fazer serviços que não requeriam grandes conhecimentos. Ele tinha preguiça de pensar. Não pensava além de um palmo de distância.

Quando pensávamos que ele fosse ficar um solteirão, apareceu com uma moça que era exatamente o contrário dele: baixa, feia e rica. Ela havia acabado de se mudar para o nosso bairro. Pelo visto, não conhecia a fama do nosso nobre amigo. Andava com ele para baixo e para cima, era um grude que mais parecia um super bonder daqueles que nem é preciso colocar na geladeira depois de aberto. A essas alturas do campeonato, ele havia se tornado um pedreiro daqueles bem vagabundos, mas permanecia de todo, um homem bonito.

Logo eles casaram. Formavam um par sem muita convicção, foram morar mais para o centro da cidade em uma casa bem confortável. Ela, como disse, tinha algumas posses.

Passado, alguns dias eu estava lá na beira do ribeirão pescando alguns bagres quando ele chegou.

__ E aí Juvêncio, virou pescador?
__ Não.
__ E o que foi que o trouxe aqui?
__ Vim jogar minhas colheres de pedreiro fora.
__ Por quê?
__ Quem casa com uma mulher feia como aquela merece algumas regalias.

Não perguntei mais nada, ele jogou as colheres no córrego e foi embora.

Dias depois, encontrei meu amigo caminhando em direção ao mesmo córrego.

__ Aonde você vai?
__ Vou lá no córrego pra ver se ainda recupero minhas ferramentas.
__ E as regalias?
__ Que regalias?
__ Você não disse que quem casa com mulher feia merece regalias.
__ Eu falei isso?
__ Falou.
__ Certamente não estava falando da minha mulher.
__ Com certeza, com certeza.

Fiquei calado, mas aqui dentro, eu tive a mais nítida certeza de que nem sempre a beleza é fundamental...

   Pedro Cardoso é cronista   -   Texto Publicado com autorização do autor

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