MENINO DE RUA

 

Que coisa mais maluca é a morte. Nunca soube explicar a razão pela qual sempre quis ser um Kafka, mesmo sabendo que já morreu. Como ele, sempre quis entrar em um buraco onde o fundo fosse bem fundo e a dor estupidamente delinqüente, áspera e rude. O que vejo em cada esquina da vida (ora meninos pedindo esmola, ora meninas oferecendo o próprio corpo), sempre foi o meu tormento. Segundo Kafka, tudo é fantasia: a família, o escritório, a rua e até os amigos. Na maioria das vezes, sou obrigado a concordar com ele. As famílias estão se desintegrando; os escritórios geralmente são usados para fazer falcatruas, a rua é um ponto de referência onde vemos a vida passar na contramão. Mas em se falando dos amigos... Discordo dele. Em uma dessas esquinas, conheci um menino que ganhava a vida fazendo mágica.

Usava um baralho velho e desgastado. Pelo que sei, faltavam várias cartas. Sempre estava lá mostrando suas habilidades para ganhar o pão do outro dia. O fato é que ele sempre "adivinhava" qual era a carta que o curioso escolhia. O truque era sempre o mesmo. Embaralhava e mostrava a do fundo para o curioso. Quando distribuía, já sabia onde a "distinta" ia ficar. Como era ágil com as mãos, ficava fácil ludibriar os incautos transeuntes de primeira leva. A mágica era realizada com oito cartas, distribuídas na calçada em forma de cruz, em dois grupos de quatro cartas. Depois desse processo preliminar, ele, sorrateiramente perguntava:

__ Qual é o monte que o senhor escolhe?

Qualquer que fosse a resposta ele iludia a sua "vítima". Descartava sempre o monte onde a carta escolhida não estava. Se a pessoa escolhia o monte onde estava a carta que deveria ser encontrada, ele falava: "já que escolheu esse, vamos descartar o outro". Quando o monte não era o da carta marcada ele fazia a mesma coisa "já que você escolheu aquele, vamos descartar este". Em um segundo momento, após descartar o primeiro lote, fazia um breve movimento com uma das mãos sinalizando as cartas que estavam na horizontal e as que figuravam na vertical. Assim, fazia uma segunda pergunta:

__ Horizontais ou verticais?

Mais uma vez a tática usada era a mesma. Sempre funcionava. Hoje, quando passei por lá, ele não estava. Havia um outro menino em seu lugar como se nada houvesse acontecido. Disseram-me que uma bala perdida havia encontrado o seu peito e que ele havia tombado sem um gemido. Fiquei ali por alguns instantes. O cheiro da morte ainda estava presente, as pessoas riam e se divertiam com aquela brincadeira banal. O interessante era ver a cara de cidadão quando era enganado. Naquele dia algumas pessoas nem perceberam que o "mágico" era outro. Infelizmente, como um passo de mágica, aquele menino, hoje, figura nas estatísticas da violência apenas como sendo mais um. Quem sabe o de número mil, dois mil... Sei lá. Foi aí que eu me lembrei da morte de Kafka "eu precisava me livrar de mim mesmo, ser completamente esquecido para quem sabe poder descansar em paz".

Ainda bem que não sei onde "aquele mágico" foi enterrado, certamente iria lá perturbar a sua paz. A morte já não me assusta, sinto que morro todos os dias, sinto que as pessoas estão morrendo por nada e nada faz diferença, nem mesmo a morte de um mágico. Hoje somos objetos descartáveis. O desejo que tenho é de arrancar minhas vestes e cobrir a primeira estátua que encontrar. Acho que elas são mais humanas do que eu e merecem ser protegidas das balas perdidas para não morrerem inutilmente.

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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