Nunca gostei de
futebol. Às vezes fico imaginando aquele bando de homens suados,
correndo atrás de uma única bola. Não consigo
me imaginar trombandocom um brutamonte daqueles que estamos acostumados
a ver na televisão.
Sempre achei que os esportes deveriam ser mistos. Nada desse negócio
de homens para um lado e mulheres para o outro.
Mas sempre gostei de apostas, embora esteja convicto de que quem ganha
o que não precisa, leva para casa um grande problema.
Assim, acabei me
atrevendo a jogar baralho, que é um jogo mais suave para os
paradigmas sexuais e quaisquer outros riscos.
Certa vez jogando pra valer - a turma era boa e sem muita confusão
- um dos parceiros de mesa ficou sem nenhum tostão para apostar.
Nessa hora, cidadão
resolveu oferecer o que era até então inadmissível
para mim. Propôs em troca de algumas fichas a sua própria
mulher. Fiquei de boca caída com tamanho abuso, nunca imaginei
que alguém pudesse ter a coragem de oferecer a sua própria
companheira em uma mesa de jogo, ainda mais sabendo que ele tinha
com ela uma filha e um filho.
Todos levantaram da mesa, o susto foi geral, mas apesar do absurdo
um dos componentes do grupo ficou interessado no caso. Queria saber
como era a tal mulher e como seria a entrega do prêmio caso
ele viesse a ganhar.
As explicações
foram fartas e cheias de riso. Até uma fotografia da mulher
foi oferecida para apreciação do grupo. Passou de mão
em mão, sem que nenhum detalhe fosse esquecido.
É bem verdade
que a foto não era lá essa maravilha.
Segundo o marido, era uma fotografia recente e sem retoques, se bem
que eu tive minhas dúvidas, mas também não dei
muita importância porque, de qualquer forma, não estava
interessado.
Como ninguém tomava uma decisão, o dono da casa sugeriu
que a proposta fosse
aceita, caso contrário, o jogo terminaria por falta de jogadores.
Assim, o jogo recomeçou depois de várias horas de debate
e explicações a respeito da mulher que era a "aposta".
A digníssima foi avisada e sem maiores explicações
disse que estava ciente e conformada com a situação,
alegou que confiava no marido e que essa não era a primeira
vez que ele a oferecia em garantia.
O jogo reiniciou de forma completamente diferente de quando havia
sido interrompido. O cidadão que deu a mulher em troca das
fichas começou a blefar. Era um blefe atrás do outro.
Ninguém estava entendendo nada, ele havia mudado completamente
a sua maneira de jogar, era outra pessoa, parecia absolutamente desconcentrado
e evidente que queria perder o jogo, só que isso não
acontecia. Ele acabou recuperando o dinheiro que estava perdido.