Um eleitor quase cego

Acho que nós, brasileiros, deveríamos lançar a moda: eleições todos os anos.
Poderíamos começar com a de prefeito; em seguida faríamos a de governador, a de senador e, por último, a de presidente.
No quinto ano já teríamos novamente a de prefeito e assim por diante. Acabaríamos com a eleição para vereador e deputado - mesmo porque já andam dizendo que é melhor votar naquelas senhoras devassas dos bordéis, porque os filhos não resolvem nada.
O número de desempregados seria bem menor do que o de hoje e com a vantagem de não precisarmos assinar Carteira de Trabalho e, muito menos, recolher os encargos sociais para a Previdência.
A maior vantagem talvez seja mesmo a de não ser necessário dizer de onde vêm os recursos de campanha. Dessa forma - pense bem - estaríamos, inclusive fazendo uma verdadeira distribuição de renda.

As propagandas dos candidatos nunca precisariam ser retiradas já que os postes estão consagrados como porta-retratos dos ilustres políticos, basta verificar que em todos eles existem cartazes ali colados e que, curiosa e intuitivamente, obedecem a uma hierarquia singular: quanto mais desqualificado é o candidato, mais alto ele coloca a sua cara. Este ano, alguns candidatos mais cuidadosos tiveram a capacidade criativa de colocá-las acima das lâmpadas dos postes, causando uma poluição visual nunca vista.Com as urnas eletrônicas, uma invenção genuinamente brasileira, o processo ficou mais fácil e ágil, diminuindo em muito os problemas de apuração que ocorriam em anos anteriores, portanto, um avanço. Outro fato importante é que o governo não tem custo com a mão de obra utilizada nas campanhas, pois todos mesários e secretários, são obrigados a trabalhar de forma gratuita e sem direito a reclamações.

Estou fazendo essas preliminares apenas para contar um caso que ocorreu na seção e zona onde eu voto.Um eleitor bem apessoado, trajando vestes elegantes, estava logo à minha frente. A primeira vista um cidadão como um outro qualquer, usava óculos no escuro e seguia a fila dentro dos parâmetros normais de uma eleição. Até aí, nada de anormal. Quando ele estava preste a entrar na sala de votação, perguntou para o seu companheiro de fila que ia a sua frente se ele poderia entrar com ele para auxiliá-lo na digitação. Prontamente o cidadão disse que sim, pois tudo levava a crer que o cidadão era um deficiente.No momento apropriado, o acompanhante pegou no braço do cidadão e lá foram os dois para a mesa de votação. Eles haviam combinado de antemão quais eram os candidatos a serem votados. Tudo correu na mais perfeita ordem, os votos foram consumados sem nenhuma objeção.

Eles eram de partidos opostos, cada qual defendia os seus candidatos com unhas e dentes. O cidadão que apertou os botões ficou encabulado porque sabia que poderia votar em quem quisesse, uma vez que o outro era aparentemente cego. Ressabiado perguntou:

__ Como você sabe que eu votei nos seus candidatos?
__ É muito simples, você está vendo essa moeda em minha mão?
__ Sim.
__ Você prefere cara ou coroa?
__ Cara.
__ Muito bem...

Jogou a moeda para cima, em seguida disse:

__ Você perdeu.
__ Como você sabe que eu perdi?
__ E como você sabe que sou cego?

 
  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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