|
Um eleitor quase cego |
|
Acho que nós,
brasileiros, deveríamos lançar a moda: eleições
todos os anos. As propagandas dos candidatos nunca precisariam ser retiradas já que os postes estão consagrados como porta-retratos dos ilustres políticos, basta verificar que em todos eles existem cartazes ali colados e que, curiosa e intuitivamente, obedecem a uma hierarquia singular: quanto mais desqualificado é o candidato, mais alto ele coloca a sua cara. Este ano, alguns candidatos mais cuidadosos tiveram a capacidade criativa de colocá-las acima das lâmpadas dos postes, causando uma poluição visual nunca vista.Com as urnas eletrônicas, uma invenção genuinamente brasileira, o processo ficou mais fácil e ágil, diminuindo em muito os problemas de apuração que ocorriam em anos anteriores, portanto, um avanço. Outro fato importante é que o governo não tem custo com a mão de obra utilizada nas campanhas, pois todos mesários e secretários, são obrigados a trabalhar de forma gratuita e sem direito a reclamações. Estou fazendo essas preliminares apenas para contar um caso que ocorreu na seção e zona onde eu voto.Um eleitor bem apessoado, trajando vestes elegantes, estava logo à minha frente. A primeira vista um cidadão como um outro qualquer, usava óculos no escuro e seguia a fila dentro dos parâmetros normais de uma eleição. Até aí, nada de anormal. Quando ele estava preste a entrar na sala de votação, perguntou para o seu companheiro de fila que ia a sua frente se ele poderia entrar com ele para auxiliá-lo na digitação. Prontamente o cidadão disse que sim, pois tudo levava a crer que o cidadão era um deficiente.No momento apropriado, o acompanhante pegou no braço do cidadão e lá foram os dois para a mesa de votação. Eles haviam combinado de antemão quais eram os candidatos a serem votados. Tudo correu na mais perfeita ordem, os votos foram consumados sem nenhuma objeção. Eles eram de partidos opostos, cada qual defendia os seus candidatos com unhas e dentes. O cidadão que apertou os botões ficou encabulado porque sabia que poderia votar em quem quisesse, uma vez que o outro era aparentemente cego. Ressabiado perguntou: __
Como você sabe que eu votei nos seus candidatos? Jogou a moeda para cima, em seguida disse: __
Você perdeu. |
| Pedro cardoso é cronista - Texto Publicado com autorização de autor |
|
©Sonho DigitalBR Todos os direitos reservados |