A liberdade pode ser um problema

Um dia à beira de um rio, lá pelas bandas de Mato Grosso, um menino me disse que a liberdade era algo muito triste. Não entendi direito o que ele tentava me dizer, acho que não estava prestando atenção no que estava falando ou se realmente aquilo era uma verdade que eu ainda não conhecia. Sei que, antes que pudesse fazer uma nova pergunta, ele já seguia longe na sua trilha, como quem tem pressa.
Acompanhei os seus passos com os olhos perdidos no tempo. Aquela afirmativa grudou em mim como cola, como quem pega visgo no pé. Aonde eu ia, ela me aparecia em forma de enigma do qual eu não conhecia a resposta. A verdade é que, por várias vezes, voltei àquele lugar para ver se
encontrava novamente o tal menino.
Martelava em minha cabeça a pergunta: que diabos aquele infeliz tentou me ensinar? Pois até agora não consegui decifrar a charada.
Anos depois, parece que encontrei a primeira resposta quando percebi que a liberdade é uma corrida extenuante, onde você tem que vencer primeiro os seus próprios passos, as suas próprias vontades, as suas próprias pernas.
Enxergando assim, concluí que a liberdade era mesmo pesada demais para aqueles ombros tão ternos e ainda tão frágeis. E, ainda apegado, cá estou falando daquele menino que o destino me levou.Minha segunda resposta veio logo hoje pela manhã ao abrir minha carteira de dinheiro e, dela, retirar várias notas.
Percebi que aquele dinheiro, ainda novo de uso, não me servia de nada, pois não precisava de nada naquele momento, tudo que poderia desejar comprar, eu já tinha.
A consciência falava alto dentro de mim. Quando cheguei em casa para abrir a porta, encontrei minha terceira resposta; a chave estava do lado de fora e eu não queria entrar, pois, se o fizesse, certamente estaria me prendendo dentro da minha própria casa, uma vez que teria que fechar a porta, batê-la contra o tempo, contra aqueles passos que caminhavam longe.
Já noite alta, quando abri a boca para escovar dos dentes, constatei que todos, mesmo os cariados, estavam no lugar e que eu poderia comer de tudo, mas tudo me repugnava, me enojava, me tirava pedaços.
No dia seguinte, quando cheguei ao trabalho percebi que todo o meu serviço estava por fazer, mas que se eu não o fizesse, outros fariam por mim. (acho que até melhor).Com todas as respostas na ponta da língua, andando pelas ruas da cidade, encontrei um vagabundo que dizia querer voltar para a cadeia, pois segundo ele, lá, ele tinha casa, cama e comida, mesmo que mal e porcamente. Para ele também a liberdade era um peso sem medida, um problema sem solução.Em nossa Constituição Federal está consignado o direito sagrado de ir e vir.
Esse, com certeza, é um dos nossos maiores problemas, ir para onde? Ou, vir de onde? É por isso que não encontro mais aquele menino, não sei para onde os seus passos o levaram, mas se um dia você encontrá-lo vagando por aí, apenas diga: foge, foge menino!

 

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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