UM VELHO ENTRA NO BIG BROTHER

O homem idoso preferia livros e rádio, via pouco, televisão: as notícias; dois canais estrangeiros; a Globo News; Os Maias (quando passou); o futebol, velha paixão. Mansa figura, ficou na sala com a família, interessada (logo depois se desinteressou) numa noite de domingo em que o Big Brother e a Casa dos Artistas disputavam audiência.

Caiu em fundo silêncio. Teve vontade de chorar controlada, não iria um senhor antigo derramar lágrimas na frente até de netos. A tudo olhou com a serenidade das profundas tristezas. Pediu licença para recolher-se ao leito, aos velhos todos permitem - e até aplaudem - a retirada. Afundou-se em dolorosas reflexões: "Céus, o que está a acontecer com o mundo e o Brasil?! Como é possível ser atração de multidões um programa com pessoas sem nada para dizer, visão paupérrima da vida, vestidas de modo desmazelado, gestos grosseiros, pernas abertas, mitificação do corpo, vocabulário chulo, conversas só tolas, dicção horrenda, vazio existencial, seres a ambicionar apenas fama e dinheiro, aceitando denunciar companheiros para os excluir do programa, a exercitar a maledicência, a transmitir uma visão consumista da vida, a estimular não a sutileza do erotismo mas sua concepção vulgar ou meramente lúbrica"? Como é possível a mediocridade, a grossura, o "voyeurismo", os baixos instintos serem erigidos à condição de entretenimento? E se o povo gosta disso, como culpar os canais? E se gosta, então o nível médio anda lamentável. Por causa dos canais?

O homem idoso acostou-se, apagou a luz e sua cabeça continuava a "ruminar": "Estarei velho e antigo, insensível aos novos tempos, ou, ao contrário, levei anos a ler, a aprimorar-me, a tentar evoluir, a lutar por construir valores de vida e minha reação não é velhice nem passadismo, ela é saudável, aquilo é mesmo um horror, tórrido testemunho da mediocridade".

Os pensamentos se embaralham quando ele se lembrou dos tempos da delicadeza citados em música do Chico Buarque, e cantarolou mentalmente, lembrou ainda do amor gentil, queria a vida como valor e milagre e, não, como instrumento do consumo e superficialidade. Será este o mundo onde meus netos irão viver? Mediocridade como espetáculo por um lado, violência por outro?

E como era de paz, o homem idoso logo embaralhou de vez as idéias e adormeceu aquele sono saboroso mas estranho dos velhos.

   Artur da Távola é senador e escritor-Texto Publicado com autorização do autor

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